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26 de jan. de 2016

second thoughts


I’m too afraid to write you a poem. Far more than heights, far more than spiders. It is not a fear I’m willing to avoid, to leap, to jump or to kill. I will not step over this walking shadow of expectations. I will not pray this ghost away.

I will pray for him to stay.

Because as long as I feel a thousand of possibilities and insecurities shivering down my spine, my verses will hang unwritten. Floating over this colorful – but bright – abyss between not good enough and not feeling at all.

I’m savoring this uncertainty.

I’m treasuring every signal I might’ve misread, for that has been teaching me how to stay afloat when the ocean is far too much troubled.


I’m embracing the wholeness of myself.

23 de jun. de 2015

#02 (para apreciar também os dias tristes)


não há poemas escritos para os dias de céu limpo. é preciso que se anuviem os olhos para que as rimas comecem a aparecer. não há estrelas no céu escuro, ou há porque não as vemos? só destruímos o que podemos construir.

tenho me forçado a perguntar os porquês. não quero estar triste mas por quê?! por que, pergunto, se, bem clamo, não há poemas escritos para os dias de céu limpo. quero amar, ser bom, ter sucesso, ser bonito, ser feliz... por que, por que, por quê? se cada suspiro tem seu tom e seu valor. não há nada que me tape os vazios senão legitimamente ser. sem quereres ou poderes ou pudores. ser tempestade quando convir, céu nublado quando precisar e sol se assim for, mas invariavelmente celebrar a pungência de ser o que se é e sê-lo agora. é sempre agora, no fim das contas.


só destruímos o que podemos construir. nada me destrói além de mim.

10 de jun. de 2015

#01 (gaveta)

Meu objetivo pessoal é sentir medo de três coisas, no mínimo, do nascer do sol à meia-noite.

Hoje mesmo, apareceu uma aranha no meu quarto e fui lá pra dizer um oi. Que se sentisse confortável, a casa é sua, só não repara a bagunça. É assim que quero lidar com todos os meus medos. Quando o fracasso tapar-me os olhos e chutar-me os joelhos, quero poder olhá-lo nos olhos e dizer: a casa é sua, só não repara a bagunça. E se rirem de mim, se não me aceitarem por quem sou, se a noite for muito escura ou o abismo muito fundo, quero pegar-lhes todos pela mão, afagar seus cabelos, fazer piada sobre o jeito que eles andam e passar-lhes um café. Quanto mais a gente faz força, mais forte a gente fica. Quanto mais temos coragem, mais coragem nós temos. Cês gostam de Friends? Hoje eu vou ver Friends. Sentem ali que já já o café tá pronto. Sintam-se confortáveis, a casa é de vocês.



8 de jun. de 2015

Manifesto.


Costumava orgulhar-me em saber das coisas.

Dos meus planos, das provas, o nome das flores no jardim e a espécie dos passarinhos. Saber das contas, mas dos poemas. As reações químicas e os sentimentos. Hoje orgulho-me em não saber de nada. Sei que sou e que vou, mas não sei quem ou onde. É a descoberta que move, e há de se saber que sempre há o que ser descoberto. Sempre há de se aprender e de se ensinar. Não sou só um pedaço de carne, mas sou também um pedaço de carne, como você e eles ali também. Pra olhar pra frente é pra dentro que se olha. E, se não der pra ver da lua, não me incomoda. Meu sucesso último é ser feliz. E lembrar de estar feliz é meu esforço constante

2 de jul. de 2014

Pó-de-estrelas



Quando era pequeno, meu pai dissera-me que todos nós, tudo que existe, todas as curvas e cantos eram feitos do pó das estrelas. Que, antes de existir coisa alguma, estávamos todos apertados em um lugarzinho só e existiu uma explosão que construiu tudo o que há. Eu, contrariado, pensava comigo mesmo que coisa alguma que começasse com uma explosão poderia ser boa coisa. Afinal, imagina tudo que você conhece indo pelos ares em um turbilhão de luzes e calores e, num piscar de olhos em câmera lenta, tudo sendo novo. Eu sei lá, não parecia coisa boa. Mas eu não dizia isso ao meu pai. Ele contava suas histórias com tanta paixão que eu ficava receoso de não demonstrar animação.


Uns anos mais tarde, conheci na escola uma menina que dizia exatamente as mesmas coisas: nós somos pó de estrelas. Blargh. E ela dizia, também, que quando nós morrêssemos, voltaríamos às estrelas, porque lá que é a nossa casa de verdade. Mas eu discordava. Batia o pé e dizia pra ela que minha casa de verdade era na rua do mercadinho. E que, aliás, ela poderia aparecer lá para tomar um chá qualquer hora dessas. Mas ela nunca aparecia.


E essa coisa do pó das estrelas me perseguiu por toda a vida. Sempre que eu olhava pro céu e via aquele bando de luzinhas espalhadas pela imensidão anil, como se alguém tivesse batido as costas da mão no pote de lantejoulas, não sentia nada além de vertigem. Mas às vezes, dando o braço a torcer, eu até devaneava sobre as estrelas pensarem que elas, na verdade, serem feitas de pó-de-gente. E sobre em alguma dessas estrelas viver também um menininho dos cabelos despenteados que torcia o nariz quando ouvia essa história boba.


Eu encontrei a menina-do-pó-de-estrelas em mais duas outras ocasiões ao longo da vida.


Um: quando eu voltava do cursinho, espremido entre os outros passageiros do ônibus, eu a vi pela janela. Estava sentada no meio fio com um outro menino. Tinha dezesseis anos, calculei, já que era um ano mais nova que eu. Eu demorei um tempo até lembrar de onde conhecia aquele rosto, mas foi só ver ela apontar pro céu e cochichar alguma coisa pro menino que eu lembrei. Mas logo o ônibus voltou a andar.


Dois: quando eu bati no carro dela. Lembro que desci do carro pensando no pior adjetivo que eu conhecia (a título de curiosidade, era “remelenta”), mas estanquei quando vi quem estava dirigindo. Logo disse que eu cobriria todos os prejuízos – ainda me pergunto por que raios fui inventar de dizer isso – e a relembrei: “Poxa, sou eu. Estudamos juntos, lembra?”. Mas, apesar de ela ter fingindo um “aaah” de surpresa, como se tivesse lembrado de súbito, não acho que ela tenha lembrado. E eu fiquei me sentindo um palhaço, imaginando que aquilo teria soado a ela como uma cantada nojenta ou algo do tipo. E pra piorar, quando ela estava indo embora, eu a convidei para um chá lá na minha casa. “Ainda fica na rua do mercadinho, viu?!”. Ridículo.


Desde então eu tomo meu chá sozinho. Às vezes sentado na frente da televisão ou lendo algum livro. Mas às vezes eu levo minha xícara para o quintal, sentando no chão e olhando para o céu. Às vezes é só pelo vento que aparece esporadicamente para despentear os meus cabelos. Mas às vezes é para quase-acreditar naquela história do pó-das-estrelas: são nessas noites que eu penso que, se nós estivemos mesmo todos apertados em um lugarzinho só antes da grande explosão, talvez eu e ela já tenhamos tomado umas xícaras de chá juntos. E, só talvez, ela tenha vivido uma vida inteira apertada ao meu lado.




escrito para um Campeonato de Textos remoto.

7 de mar. de 2014

Ei, medo.

Já que tu não podes ir embora, entra e toma um café. Estou obrigando-me a sentir-me acostumado à tua nebulosa presença. Sabe, há uma fome que toma vida em meu peito, muito embora venha apenas a passeio: ela vem em épocas de baixa temporada, quando os pensamentos são fúteis e vida está efêmera; quando não há nada que realmente valha a visita que não a falta de existência. E a desistência. Não é um buraco, não é o silêncio: é a vida, o tempo que corre astuto e arisco. Essa fome, tu que estás no caminho, clama por algo belo. Algo que venha de dentro e seja cinza, que seja tão eu quanto meu. Algo que faça sentir-me efemeramente belo. Que meliflua as cores. Mas aí tu apareces. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Costurando-me enquanto me rasgo, tapando os buracos da alma de onde as palavras escorrem. Ainda que não nos tenhamos sido apresentados e ainda que eu mal saiba teu nome, ainda assim, senta-te e sirva-te do meu café, não te acanhes. Somos velhos espectros um ao outro, companhia solitária. Sinta-te em casa, por favor, eu peço. Mas deixa que beleza escorra. Tenho pra mim que os ecos da vida que levo têm começado a silenciar, o que me entristece um bocado. Veja bem, que sou senão os ecos que deixei e deixarei? E os deixei? Tenho reclamado por pouco e me bordado mártir nessa vida, como que pra ser bela. Mas não é. Veja bem, já que tu não te vais, toma um chá, mas encha minha xícara de alma, por favor. Tenho fome de beleza.

27 de dez. de 2013

diálogo

- sabe, eu vi aquele filme esses dias atrás e fiquei pensando...
- no quê?
- que é engraçado. a gente nunca sabe o que é real. afinal, o que é ser real...?
- que papo mais maluco... como assim?
- olha pra gente. nós somos reais? eu posso te tocar, olha. posso te ver, te cheirar, te ouvir... isso faz de você real?
- pois sim, como não faria?
- ah, não sei. para pra pensar: existe um monte de pessoas vivendo do outro lado do planeta, pessoas que eu nunca toquei, nunca vi, nunca ouvi. elas não são reais, então?
- claro que são! você agora é a medida para todas as coisas?
- ora, se não eu, quem é? a gente só vive no mundo através dos nossos sentidos. o que me garante que meus sentidos não me enganam? agora mesmo, essa conversa pode ter acontecido semana passada e meus sentidos só estão repetindo ela pra mim. eu posso agora mesmo estar sentado na minha varanda tomando chá mate, e achando que estou aqui com você. como é que vou saber?
- ah, para, não viaja. você nem é uma pessoa de verdade. você só é um amontoado de palavras num diálogo. nem letra maiúscula nós temos. acho bom você ficar aí na sua e parar de questionar.
- mas agora mesmo tem alguém lendo a gente.
- oxe, e daí?
- e daí que aposto que agora temos um rosto. um corpo. uma voz, um cheiro, um olhar, um par de sapatos e uma roupa bonita. nós somos menos reais só porque estamos existindo dentro da cabeça de alguém? afinal, não é todo mundo que existe dentro da cabeça de alguém? é com os meus olhos que eu vejo o mundo.
- eu acho é que você tá ficando biruta.
- ah, você não entende. vai continuar repetindo as mesmas palavras sempre, exatamente as mesmas. você não tem poder de escolha porque tá acorrentado.
- que mané acorrentado!
- então vai lá, diz alguma coisa diferente, quebra o ciclo. faz seu próprio destino. quero ver.
- eu não, tou bem assim. mas você pode tentar aí.
- e eu vou mesmo. vou escrever minha própria história. você tem papel?
- tenho, aqui ó.
- ih, mas esse já tem coisa escrita.
- ué!
- é, olha, o texto começa assim: “- sabe, eu vi aquele filme esses dias atrás e fiquei pensando...”

13 de out. de 2013

Viveria


À meia luz os olhos dela são menos tristes. Os lábios rubros que se abrem, se contorcem e se envergam jamais sorriem, são meras linhas que desgrudam e se tocam num átimo para falar de amor. Tocaria a ponta dos dedos pútridos no lóbulo da orelha direita, como que para mostrar a bijuteria barata que ainda brilhava a essa hora da madrugava, estrela (de)cadente – mas querendo mesmo dizer que mais vale ouvir o silêncio porque ele não mente – tocaria se dedos pútridos ainda houvesse. O silêncio não mais agarra por trás e arranha sua cintura qual o tango taciturno da noite passada. Borrifaria, então, as últimas gotas do perfume que escorrem pelo espelho por entre os seios para tapear o cheiro dos sonhos mortos que carrega dentro de si há muito, e riria ao lembrar de que cada boca que a beijara levara um pouco daquela morte, e que em pouco aqueles dentes também apodreceriam e então restaria ali a poesia do que nunca existiu, enterrados sem nome ou epitáfio. Aqui jaz, e só. Jazia há muito. Talvez até pentearia os cabelos, que foram tranças, foram nada. E deixaria que a escova caísse no chão só para ter que se mover e sentir o calor vívido da brisa que entra pela janela despretensiosamente entreaberta, cheirando a álcool e tabaco. E fitaria fundo os olhos no espelho até que visse a própria alma, refugiada nos recônditos calejados de sua pífia existência. Num instante ralharia consigo, perguntando o que diabos se tornara, o que diabos fizera com a vida.  E cada célula que ainda vivesse amontoada sobre seus sonhos abriria os olhos, e elas se entreolhariam desacreditadas – é isso mesmo que estou entendendo? Ela prometeria a si mesma que amanhã mesmo trataria de ser feliz. E as lágrimas que escorreriam de seus olhos seriam também felizes. E assim que o sol entrasse por aquela maldita janela entreaberta e viesse tocar a brancura de sua pele, ela encheria os pulmões do ar de um novo dia e, enfim, viveria.
Viveria, se o coração que batia, batesse para levar o sangue por entre o seu corpo, e não por sobre a penteadeira.
viveria
se o coração
ainda

bat

ess

e

15 de fev. de 2013

Casa








Pode ser que o barco vire. Também pode ser que não.

 Semicerrou os olhos ao deslizar a ponta dos dedos pelo copo de não-sei-o-quê. Tocara-o nos lábios uma dezena de vezes e agora estavam secos; os lábios e o copo. Apoiou-se na bancada para conseguir sorrir de vertigem.

- Cê tá bem?

- Tou, é só...

Era só o quê? Era só e ponto. Estavam só, e só. Pode isso? Ficar só e ficar com outra pessoa ao mesmo tempo? Vai saber. Bastava que ficasse incompleto, que reticenciasse por aí. Não queria saber explicar e, de fato, não sabia. Agora que parou para pensar... A ideia de não saber não incomodava, como sempre fazia. Era só fechar os olhos e ouvir o coração batendo para acreditar que fosse verdade. Talvez não fosse, mas o coração batia de qualquer forma.

- E afinal, o que é que eu tou fazendo aqui, hein?

- Eu é que sei?

Olhou em volta e sentiu-se estranhamente à vontade. Nunca ficava à vontade. Talvez conhecesse aquele azulejo no tom de azul mais feio que já vira de outras vidas. E aqueles olhos, no tom de azul mais bonito que já vira? Lembrava-se dessa vida mesmo. Como um prenúncio do não-saber-onde-colocar-a-mão que certamente se seguiria. E do medo de deixar-se cair demais. Pendurar-se-ia naqueles cabelos e escalaria para cima até, mais uma vez, alcançar-se: no topo de outrem. A lasca perdida de seu coração guardada debaixo daquela língua.

Aproximou-se de si. E, dos dois lados, espiralou pelo ar aquele cheiro de "você" que ninguém mais tinha.

A cabeça pendeu à guisa de pergunta que jamais se enunciou.

- O que cê tá fazendo?

Os lábios se tocaram à guisa de resposta.

- Eu tou voltando pra casa.

21 de dez. de 2012

Epitáfio Avesso.




Ainda que o mundo fosse acabar de fato, ainda assim teria recusado quando o chamaram para dançar. Gostava da música e até cantarolou quando não tinha ninguém olhando. Mas o lugar era o mesmo, as pessoas eram as mesmas, o barman era o mesmo. Ele era o mesmo. A certeza veio quando deixou escorrer a bebida pelo canto dos lábios secos. Era uísque da primeira vez que pedira, mas agora não sabia ao certo... Deveria haver algo entre conformismo e vontade rodopiando liquefeito pelo copo e esbarrando vez ou outra nas pedras de gelo. Quiçá dissolvesse a alegria irrealizada presa na garganta. Tomou outro gole.

O cabelo, despenteara no caminho. O colarinho manchado e puído, a gravata frouxa, caindo torta pelo peito feito cruz. Os olhos úmidos e cinzas. Foram chamas um dia e talvez algo que renascesse em breve. Mas não sabia ao certo. Se o mundo fosse mesmo acabar, teria dito à moça da recepção o quanto achava que ela era bonita? Teria chamado-a para sair, teria sorrido, teria aceitado quando o convidaram para dançar? Quem sabe. O mundo não acabaria. Não é?

Mas não se pode morrer engasgado de alegria, rapaz! Teria que gritá-la ao mundo antes de ir. Ou tomar para si e engolir, enfim. A iminência do fim aceleraria as sístoles e as diástoles e os desastres e o mundo ficaria mais bonito, de repente. Um coração batendo, ofegante aos suspiros.

Mas o mundo não acaba. E ainda há tempo de pedir mais uma dose de autocomiseração. Sem gelo, dessa vez. E tropeçar em poesia ao cruzar a porta.

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Quem sabe um dia.

10 de nov. de 2012

Embriaguez Confessa.


Eu matei um homem. E venho matando-o desde sempre. Desde antes de ser e ter aprendido a vomitar sobre o papel palavras que fui engolindo aos pouquinhos: verdades inventadas, mentiras amargas e, só vez ou outra, uma letra cinza.

Matei um homem e guardei sua alma na gaveta de meias. O corpo deixo por aí, arrastando-se pelos cantos enquanto acredita que é algo além de um bando de ossos e pele e órgãos, nos quais não resta o menor resquício de vida. Quebrei todos os espelhos da casa para que, quando esbarrar os olhos, não ecoe de dentro tamanho vazio... zio... io.

E os copos, enchi-os todos. Duas pedras de gelo: uma para a solidão da outra. Se grito assim, escondendo minha culpa detrás das linhas, é porque já desisti de me importar. E viro as costas antes de ver você, a quem minhas palavras talvez atinjam (como talvez pendam inertes e se percam pelo caminho).

Matei um homem. A noite é fria e a manhã é cinza. Temo que este homem seja eu. 

20 de out. de 2012

Volcano.




Havia o menino ensimesmado sentado ao chão e o passarinho no alto de sua árvore. Houve, quiçá, um assobiar descompassado e baixinho de uma canção sobre pássaros que não voam, mas ninguém jamais o ouviu. E houve, com toda certeza que ouso escorrer para a ponta dos dedos, um coração batendo.
O passarinho (tão covarde!) observava o menino de longe, sem coragem de tentar um vôo. Pois, ali de seu galho, era um talvez; e como bom pássaro cinza, era cheio de talvezes: metade sim, metade não. Talvez o menino sequer notasse seu tombo, talvez o acudisse e o colocasse em um galho ainda mais alto... Mas talvez o acolhesse em seu ombro e o levasse consigo. Metade sim, metade não.
Como podia? Quando o passarinho olhava para o menino via seu reflexo, de uma estranha maneira. Só não sabia se via pássaro no menino, ou menino no pássaro que era. Mas havia algo naqueles olhos – tão grandes quanto os seus! – que lhe dava uma tal vontade de cair... Um campo de força. E quando os olhares ousavam esbarrar, sentia-se tão perto dele. Ah, o mundo: tão pequeno para a vontade, tão grande para a saudade.
Mas, afinal, quando olhava para o menino via só um pássaro crescido. E o menino, quando olhava para o pássaro, via o quê?




9 de ago. de 2012

Casmurrice.


ou soneto inacabado.

Olhou-me e eu mal notei, cosido ao avesso dos meus olhos, cinza – pecado que por si só já me renderia arrependimento suficiente pra uns catorze versos. Sorte a minha, Feeló cutucou-me e eu os vi: oblíquos e dissimulados. Não de ressaca, mas de festa (tornar-se-iam Capitu quando as luzes se apagassem, mas não digo com certeza) feito sorriso demais para caber nos lábios finos.
Não durou mais que um segundo, mas escondi-me detrás de um ponteiro incauto e o fiz maior. Tempo o suficiente, apenas, para tornar palpável a efemeridade que espetou em mim junto com os olhos. Pediria ajuda à noite se ela já estivesse ali. Havia duas ou três janelas, bem verdade, mas também não ousei pedir ajuda aos vaga-lumes. Compreenda: o soneto é tão inacabado quanto inacabável, e assim o é para que a eternidade trate de preencher as lacunas.
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!... Ganha-se a vida, perde-se a batalha.
Mas ainda que seus olhos nada me dissessem e de mais nada me servissem, eu os usaria de marca-páginas: da próxima vez, continuo de onde parei. 

5 de ago. de 2012

Quando Feeló Quis Gritar.



O silêncio a engolia. Tapava-lhe os olhos com a escuridão que cheirava a brócolis. Era assim, noite após noite. Mal se importava com o céu estrelado que sorria para ela, ou com a brisa gélida que vinha só para despentear-lhe os cabelos demasiadamente curtos. Queria mesmo era lançar um grito desumano... Mas não sabia ao certo se queria ser escutada. Mal adiantava colocar as meias de lã e fugir em desengonço para o quintal, porque antes mesmo do pôr-do-sol, as mãos de Sofia lhe cobririam a boca. E ela não lutaria. Não lutaria porque não tinha certeza se queria ser escutada; se flertar com o silêncio lhe fazia, de todo, mal.

Até que, na noite mais fria que encontrou, ela olhou para cima. E viu logo um velho papel outrora maculado de carmim. E, assim que as pontas de seus dedos quentes encontraram a superfície fria do papel, Feeló gritou.

E seu grito carmim cortou o frio de uma madrugada qualquer. (Ou de todas elas).

E Feeló sentiu, enfim.

26 de fev. de 2012

Pra Cruzar o Céu de Madrugada.



0

Houve um tempo
(há muito tempo!)
Em que ser noite bastou.

Houve um tempo
(mas foi há tanto tempo...!)
Que o próprio tempo levou.

Mas eu não sou tempo
Sou um quase-poeta
(ou é o que tento...)
E tenho alma (inquieta!)
Demais para esquecer
Palavras assim ao relento.

Assim,
Comecemos pelo começo.



1


Era sempre da mesma maneira: antes que apagassem as luzes, corria a fechar os olhos. E quando fitava (sempre quieta!) o avesso das próprias pálpebras, convencia a si mesma de que a escuridão que tinha dentro de si era muito melhor do que a escuridão que o mundo a oferecia. Era mais doce, mais sua. Oh, era tão sua...! Escondia-se no mais profundo de seu âmago, detrás de uma camada demasiada grande de quietude cinza, mas estava lá, onde só os olhos fechados alcançavam. Estava lá, e era muito mais escura do
que jamais ousou admitir. Muito mais do que gostaria. 



2

Feito pó.
De grão em grão.
De nó em nó.
Crescendo, só
Na contramão.

Feito eu,
O abrir dos olhos
O fechar d’alma
Feito eu, quando oro.
Voz calma, joelho no chão.
E peço ao papai do céu
Um novo coração.

3

Chovia forte. O frio recusava-se a partir. Todos já dormiam, debaixo de cobertas grossas, e ainda assim, sentindo o gelar dos ossos. Mas ela não abriu os olhos. 

Dançava no pátio descoberto, ao som das batidas do próprio coração. Sorria. Sorria tanto...! Rodopiava com os pequenos braços abertos, feito bailarina torta. E o frio não ousava se aproximar. Tinha medo, veja só! Pois ele sabia que os olhos estavam fechados, que a escuridão o afugentaria ao mais efêmero toque. Então ele ficava ali, à espreita. Só olhando. Nem a chuva a molhava como deveria. Foi quando soube: tinha a noite dentro de si. 


4

Mas foi crescendo... Crescendo... Até não caber mais. Abriu as asas feito pássaro escuro e alçou voo d’alma. (Per)correu dos pés às pontas dos dedos das mãos. E foi ali que fez moradia.

Descobriu como cantar. Batia as asas pra sacudir as palavras pra fora, e rabiscava de pena carmim o papel, consumindo a si mesmo. Era tudo tão embaralhado, tudo tão ensimesmado! Feito um sopro. Mas a escuridão era chama. E o sopro tinha medo. Então fez encaixar tudo, como brinquedo de criança.


5

E foi quebrando
De linha em linha
E deixando queimar
A cada novo iniciar.
Sem sopro para apagar.
Sem sopro para apagar!

E foi deixando-se pra trás
Feito cinza.
Feito pó.
Feito pó.
Feito...
Pó.


6

Pés no chão.

Vazio.


7

Nunca estivera menos só.

Já não podia fechar os olhos, pois o que via não era a escuridão dos avessos das pálpebras, era
apenas um vazio morto.

Morte de escuridão viva.

Morte dos sonhos, quiçá.

Que se consome no fogo que queima na ponta dos dedos





E então descobriu as reticências.



8
...



0


Houve um tempo
(há muito tempo!)
Em que ser noite bastou.

Houve um tempo
(mas foi há tanto tempo...!)
Que o próprio tempo levou.


∞ 

Cada fim de um algo é o início de um algo todo novo. Cada partir é a certeza de um regressar do
outro lado. Cada morrer é um renascer. Cada chama que se apaga é uma escuridão que se acende.

Cada alçar voo é um novo toque dos pés no chão.


E nunca acaba.
(até que eu acabe)




...

Sacrário.

Ela tropeçou na própria fé.

Tropeçou e caiu de joelhos e mãos atadas, como quem pranteia uma prece esganiçada. 

E quando ela se levantou já não era mais a mesma.

Deixou a inocência no chão ungido onde tombou em genuflexão, sob uma benção profana e uma cruz tatuada ao peito, tal qual promessa barata de salvação. De um céu qualquer. Desanuviado e anoitecido? Seu próprio céu.

Seu pedido atendido e o precoce anoitecer eterno d’alma, deixando pra trás os vestidos florais e os sorrisos pueris. Seu pai, seu filho, e seu espírito profano. A oração ao Deus que enxerga defronte ao espelho, que reflete nada além da podridão da luz dos olhos. A Luz. Oh, mas há tanto túnel para se percorrer ainda. 

A Luz é enegrecida, tal qual sua própria alma. Esqueceu-se de ser luz, escureceu-se pra ser treva. Como uma flor seca que renega seu perfume, e troca delicadeza por podridão.

Não há como negar; ela cria. E cria de verdade. Intensa, veemente, e insanamente.

Mas, oh céus, ela tropeçou na própria fé.

Quando Chove Aqui.

Começa de mansinho, mal dá pra perceber. O céu vai escurecendo, a luz vai se esvaindo, e quando dou por mim estou com o rosto colado no vidro frio da janela, hipnotizado. Inventando minhas próprias palavras entre um trovão e outro, ou desenhando inconsistências no embaçado frágil provocado pela minha respiração. Minha respiração. Isso deve significar que ainda estou vivo, certo?


Eventualmente, há também uma xícara de café, ou um copo de chocolate quente, conforme peça a situação. Mas quase sempre o líquido esfria. Costumo me esquecer tão facilmente dele... Talvez sejam meus lábios que prefiram se encostar-se à janela gélida em vez do quente da bebida.

Pergunto-me como os passarinhos ainda cantam, quando chove. Pergunto-me se eles cantam justamente porque chove. Talvez eles sejam tão dependentes da chuva quanto eu sou. Talvez eles também parem apenas para ouvir seus gracejos, suas melodias de entrelinhas. Costumam acusar-me de me ensimesmar, quando me ponho à janela. Mas sei que não é isso o que ocorre. Ou talvez seja, considerando o fato que, de tanto observar, sinto-me parte da chuva. Ensimesmado nela, como se ela fosse meu mundo, e meu mundo fosse dela. Como talvez seja de fato.

Ora, como deixo-me impressionar? Afinal, é só água caindo.

Só.

Pois é.

Quando chove aqui eu lembro de você.

De Seu Valentim.


Ei, Senhor Curiosidade, poderia me ouvir, por favor? Sou eu, aqui!

Não posso te ver, não sei sequer se outros podem, não obstante, minhas razões são distintas. Como o senhor bem sabe, não tenho olhos. Se os tenho, são imprestáveis. Trancada estou em um infindável quarto escuro, tão vazio quanto se pode ser. Oh sim, estou presa no quarto escuro que sou, e na frieza dos cubos de gelo das pontas de meus dedos, quando vêm deslizar sobre minha pele buscando, entre a poeira pueril, partes ínfimas de uma sensualidade que, convenhamos, sequer existe.

Oh sim, basta olhar para mim para constatar. Eu, que jamais o fiz, sei bem. Sou apenas um pedaço pequenino de nada. Então, venho por meio destas palavras ocas, fazer-lhe um pedido. Não, não um pedido, um imploramento. Oh, Senhor Curiosidade, eu lhe imploro: dê-me algo de interessante. Algo de curioso. Algo que faça as pessoas, de fato, olharem para mim. Algo que as faça sorrir, que as intrigue.

Tudo bem, tudo bem, sei que não posso te enganar, então vou contar-lhe a situação toda. Bem, é tudo sobre Valentim. Com mais frequência do que eu desejaria, meu pai ordena-me que não me aproxime dele. Ele está preso nas masmorras. Nas celas outrora escuras e fétidas que, de alguma forma, agora têm cheiro de rosas. Tenho ouvido a estória da boca dos camponeses, e sei porque ele está lá. Ele acredita no amor. Oh, Senhor Curiosidade, isto não é curioso? Valentim acredita no amor, e morrerá por isso.

Nosso Rei (vida longa a ele!) insiste que amar é um crime. Então diga-me, Senhor Curiosidade, por que eu não estou jogada ao léu de uma das celas das masmorras? Sim, eu amo. Amo com todas as forças vãs de meu pequenino corpo coberto de nada. Sei que o amo. Amo Valentim, pois ele é o amor, e – veja que curioso – eu amo o amor!

Oh, Senhor Curiosidade, agora eu ouço alguém me chamar. Mas não vá embora. Sei que o Senhor tem diversos assassinatos felinos e felpudos a realizar, mas isto é de extrema importância. Não me demoro. Não vá embora, Senhor, por favor.

...

Senhor Curiosidade? Ainda está aqui? Oh, eu menti mais cedo para o senhor. Menti ao dizer que meus olhos são imprestáveis. Na realidade, eles servem de abrigo às cristalinas lágrimas azuis que agora percorrem minha face. E o fazem devido às palavras escuras que acabei de ouvir: Valentim irá para a guilhotina ao amanhecer.

Diga-me, Senhor, são minhas lágrimas realmente azuis? Ou elas são negras, como a minha alma? Não que eu saiba o que realmente seja azul, ou o negror. Não vejo as cores. Sinto-as, todavia. Cada qual em sua sintonia e frequência. Assim como sinto Valentim ao passar em frente à sua cela. Bem como ouço seus sussurros, ou sinto seu perfume de rosas.

Pode ser que eu não ter olhos seja coisa do destino. Assim como o coração de nosso Rei ser tão frio. O destino é curioso, e o Senhor sabe muito bem disso, não é? É de partir o coração que Valentim esteja agora em sua cela, esperando lentamente sua morte. Mas, de outra maneira, eu nunca o conheceria. E ainda assim, se pudesse vê-lo, nunca o notaria. Diga-me, Senhor, isto tudo não é curioso? Oh, não imagino como poderia viver sem conhecer Valentim, sem conhecer o amor.

Pergunto-me onde ele está agora. Não seja bobo! Sei que ele está em sua cela. Digo, onde estão seus pensamentos? Será que ele pensa em mim? Será que ele realmente sabe quem sou? Será... que... ele... me... ... ...ama?

Que seja, não faz diferença agora, faz? Tudo acaba amanhã. Oh, Senhor Curiosidade, poderia o Senhor levar embora consigo toda essa tristeza que esfarela meu coração? Por favor?

Tudo bem, sei que o Senhor é atarefado. Mas tenho um último pedido a fazer. Ontem à noite, enquanto passava pela cela de Valentim, ele me entregou esta carta. O Senhor poderia lê-la para mim? Oh, obrigado Senhor Curiosidade.


E no quarto escuro que era, a pequenina ouviu o soar das palavras:
“ Eu te amo.
De seu Valentim.”

E, de repente, ela já não era mais um pedacinho de nada.



Sustenido.

Sabe, não me agrada a Escala de Lá. Nunca me agradou. Prefiro arriscar-me nas inconstâncias da Escala de Aqui, nas intemperanças que soam aos acordes desafinados que destoam sob meus dedos suados. Prefiro compor aqui, e em Aqui. A oitava nota que eu mesmo tratei de inventar, e eu mesmo tratei de construir com o som das batidas de seu coração. A música dos abraços acalentadores e – paradoxalmente – vorazes de átrios e ventrículos, e os meios-tons extraídos de seu olhar. Os meios-tombos que me causa tua boca, que me deixa meio-louco, meio-torpe, meio-morto. Acompanhados sempre dos bemóis sussurrados ao pé de meu ouvido, na clave de Teu Corpo (invenção minha também, admito) onde o Ritornelo sou eu lhe implorando para ficar.

Nesta minha clave - que é tão sua, muito mais do que minha - refazem-se as mínimas, que há muito não eram usadas. Mas há muito não se ama como eu amo, então acho que posso me conceder esta pequena liberdade. E estas notas tão pequeninas duram, obrigatoriamente, para sempre. Ainda que não durem de fato, continuam soando, e ecoando assim, mansinhas, dentro de nossas cabeças.

E a pobre nota de Aqui faz-se muda sem a clave de Teu Corpo em mim. Pobrezinha, perdida no sustenido estreito e irreal entre a compaixão e si própria. Pisoteada pelas fusas e colcheias atrozes das longínquas terras de Sol e Fá.

Portanto, se insistir em ir, leve Aqui consigo. Ela ainda assim ficará perdida fora da partitura que eram os nossos corpos juntos, da composição outrora infinita que era o nosso amor, das cinco linhas que enlaçavam nossos beijos, que me amarravam em você. Mas eu continuarei na Escala de Lá, lhe esperando voltar. Aqui.

Leve Aqui e escute seu sussurro, seu choro. A melodia de seu pranto, ritmada e copiosa. Talvez ela consiga te trazer de volta pra mim, façanha que nem meus lábios quentes, nem meus dedos descompassados e demasiado ignóbeis sobre o piano conseguiram. Talvez ela toque seu coração, talvez ela tome conta dele. Talvez nem chore. Talvez lhe ofereça os ombros para que consuma os seus prantos, talvez... Talvez...

Talvez não haja Ritornelo. Talvez a platéia não peça bis. Sequer aplauda. Talvez este seja o prelúdio de meu fim. Talvez Aqui não lhe resgate de Lá.

Mas talvez ela te suba meio-tom. Talvez você volte para Dó, talvez você volte por dó. Talvez você retorne para Mi(m), e então eu poderei tocar esta canção, várias e várias vezes. Talvez, assim como eu aprendi desde cedo a tocar este velho piano, você aprenda a me amar.


25 de fev. de 2012

Sofia, a garota que não sabia sentir.


Tinha oito anos e cabelos tão encaracolados quanto os pensamentos: cachos espiralados que davam nós quando ventava muito e, de vez em quando, se esticavam até a ponta dos dedos; os cílios eram longos demais para os olhos pequenos, tão pequenos que desapareciam na brancura imaculada e pueril que era a face de Sofia. Não gostava de usar sapatos e se equilibrava descalça pelo meio-fio todas as manhãs, abrindo os braços em desengonço, como se pudesse abraçar o sol que estava para nascer. Assoviava óperas para os passarinhos e ria sozinha quando desafinava (e ela sempre desafinava!). Nunca comia chocolate, gostava mesmo era de brócolis! Quando não tinha ninguém olhando, construía bosques de brócolis, como se estes fossem árvores pequeninas, só para devorá-los depois. Não dava a mão para ninguém quando precisava atravessar as ruas e só abraçava seus livros. Sorria apenas quando tinha de escovar os dentes e fugia de seu quarto na calada da noite para sentar no jardim e conversar com as estrelas. Sofia era feliz.

Seu único mal era pensar demais. A cada novo segundo que tiquetaqueava no relógio da cozinha, um novo pensamento em espiral surgia em sua cabeça, ensimesmado, enrolado, confuso... E frio. Mas tão frio...! Sofia machucava as pontas dos dedos quando resolvia esticá-los e quando lhe perguntavam o que havia acontecido, ela apenas passava as mãozinhas pelos cabelos, como se fosse óbvia a resposta e não valesse o trabalho de tecê-la à língua. Quando achava que valia a pena, desenrolava tanto as espirais que já não as cabiam mais nas palmas das mãos. Corria logo para o quarto para buscar seu lápis carmim, e riscava o papel com tanto desespero que surgiam bolhas nas mãos. As ideias chegavam a se aquecer por uns segundos, mas logo que as palavras adormeciam, a frieza voltava. E, se alguém tocasse naquele pedaço de papel, também machucaria a ponta dos dedos...

E Sofia gritaria. Um grito que o silêncio trataria de engolir.

Pois aquele papel rabiscado de carmim, Sofia chamava de alma.