31 de mai de 2018

permanente


entrai
nos calabouços
recônditos
de vossa própria existência

entrai no escuro da alma
sem pretensão de clareá-la
bebei do amargo
ao áspero apresentai o afago
apertai vossa própria mão
abraçai vosso próprio corpo
curai vossos próprios machucados

escrevei sobre vós na segunda pessoa
só porque soa lindo pra caralho

errai
e perdoai
vossos próprios pecados

entrai
nos calabouços
recônditos
de vossa própria existência

entrai
conhecei
repeti
e sejais
vós

pois vós sois
permanente
impermanência.


26 de fev de 2018

existe um poema não escrito

no fundo da minha gaveta de meias
existe um poema não escrito

acomodou-se no escuro intocável
agora rosna e mostra
os dentes pontiagudos
sempre que ansioso e aflito
o tento escrever

há um poema turvo
que nunca tomou forma
mas que chora copioso
anuviado
as tintas as dores os amores
todos muitíssimo bem guardados

há um poema bravo
com muitos dedos para apontar

há um poema calmo
qual deriva em alto-mar

há um poema alto
crescido e longilíneo
que se recusa a ser domado
poema que ao parto
abandonado
fez-se farto
em se fazer sozinho

dele escorrem rimas infantis
velhas fotografias de família
filmes, livros, músicas

dele caem cacos de mim
pétalas de outrora
e pegadas de uma eterna busca

dele grita o SILÊNCIO
e o talvez

dele escorregam alguns sempres
e transborda a pequenez

existe um poema não escrito
no fundo da minha gaveta de meias
existe um poema bem bonito
que vem escrevendo a si mesmo
desde que o deixei para depois

ele não espera
um nome
não espera um verso
nem uma rima ele implora

ele não colabora
não é manso
esse poema nunca que vai embora

ele fica ali
com os olhinhos medrosos
desconfiados
sempre à espreita
disposto a atacar

quando na violência dos dias
vou esquecendo de ser poesia
o poema surge aos brados
por cortesia
para me lembrar.

11 de out de 2017

violência



a primeira vez que segurei na mão de outro menino em público eu senti medo.
ele me disse: a gente vai apanhar aqui, menino.
soltamos as mãos.
estava no ponto de ônibus, pronto para ir embora depois de um dia que não tinha sido menos que especial. e de repente todas as risadas doces que trocamos, o toque trôpego da ponta dos dedos dele no meu ombro, a ânsia de saber todas as informações a seu respeito e a estranheza nova de não saber direito onde colocar as mãos enquanto nos beijávamos, todas essas lembranças manchadas pelo medo de apanhar aqui, menino.

todas elas são um borrão na minha memória.
mas vejo com clareza os olhares enviesados na minha direção enquanto subia no ônibus. e as minhas mãos tremendo enquanto sentava lá no fundo.
reprovação. sem saber direito o que tinha feito, mas sabendo ao certo quem eu era.
quem eu sou. e quem eu sou faz a gente apanhar aqui, menino.

ele não olhou nos meus olhos ao dizer isso, como tinha feito questão de olhar o dia inteirinho.
olhou para baixo envergonhado, virando o rosto, com medo de enunciar e tornar real o fantasma do qual nós dois já sabíamos a existência.
uma memória tão bonita manchada por um medo que não me pertence. sobre o qual jamais poderei ter o controle.

desde então tenho ouvido que eu não preciso disso. ninguém precisa saber.
que eu posso ser discreto e ser feliz. você engana bem, nem dá pra perceber,
se você só se esforçar um pouquinho, você vai parecer uma pessoa normal.

todas as vezes é dos olhos baixos e envergonhados que lembro.
é da minha memória manchada que lembro.
e eu não me perdoo em nenhuma dessas vezes, nenhuma delas,
por ter deixado algo tão bonito ter ficado roto, não me perdoo,
podre
manchado
pelos olhares de quem eu jamais tinha visto
e jamais verei de novo, não me perdoo,
e pelo medo de apanhar aqui, menino.
eu não me perdoo
um medo que não é meu,
não me pertence,
não.
me.
perdoo.

batam-me na cara.
façam escorrer-me o sangue todo.
deixem-me os olhos roxos, até não poder mais enxergar.
arranquem todos os dentes da minha boca. um por um.
dolorosamente. sentirei a pungência dessas dores todas.
cada uma delas. vão em frente.

mas não me impeçam de ser quem eu sou.

a essa violência eu não me submeto.

7 de set de 2017

jorge se protege com o que não diz.

jorge se protege com o que não diz.

veste-se de meias promessas
que nunca serão cobradas
porquanto não deixam de existir
tampouco serão elas realizadas

jorge se arma de silêncio

jura amor mas de dentes cerrados
e quando o barro vira cimento
na culpa de um sentir violento
entre dentes jura jamais ter jurado

jorge não mente

é honesto e está ciente
que mentiras não contadas
mentiras não são

mas jorge sabe e sente

que os talvezes que planta
qual doce em boca de criança
vira cárie, viram lição


25 de jun de 2017

ciranda

encontrei-o na esquina da vida
feito espelho perdido feito eu
encontrei-o alma e fé perdida
e olhos da esperança partida
qual dia que um dia anoiteceu

tomou-me a mão e corremos
para onde nunca vou saber dizer
mas foi tanto que nos perdemos
perdidos já éramos nem percebemos
tamanha foi a vida que nos ocorreu

então espetou-me os olhinhos pequenos
e enviesado num sorriso sereno
cantou-me a sua súplica por ar

e espelho que sou fui-me derretendo
e de ir entendendo mal percebemos
que já estávamos imersos no mar

agora que faço eu, criança sozinha?
aguardo inerte em água fria
esperando rebelde pelo dia
em que chegue teu afogar?

ou vou embora e imagino
o cruzar do teu braço pequenino
e o franzir do teu cenho franzino
enquanto se recusa a nadar?




25 de mai de 2017

Brave


brave
are the flowers
that are ripped
shattered
cut
so tiny
and still remain
unapologetically kind.

5 de mai de 2017

jorge

jorge tem um hobbie
é um tempo sagrado depois do expediente em que
desejoso, fecha os olhos e sonha
sonha com o dia em que tudo fosse diferente

se eu fosse maior melhor
ele pensa
mais rico mais magro
tivesse um carro um carinho um amor um afago
se essa cadeira fosse mais confortável
se esse emprego fosse mais confortável
se essa pele fosse mais confortável
se eu não dormisse pensando no que eu podia ter dito
e vendo a reprise de friends todo esparramado
porra, se eu tivesse nascido bonito
e não fosse covarde
ia ser tudo tão mais fácil

se eu jogasse tudo pro alto e
rodasse esse mundo e
entrasse pra uma banda de rock e
e cantasse as palavras certas num refrão bem agudo e
tivesse um cabeludo no fundo tocando um baixo
se eu fosse compreendido reconhecido  e
se eu fosse amado
ia ser
tudo
tão
mais fácil

jorge tem um vício
é um tempo sagrado
em que depois do expediente
põe-se embriagado
das coisas ausentes.

enquanto suas plantas murcham
e os dentes amarelam
e os ouvidos não ouvem
e os olhos não veem
e os passarinhos continuam cantando de manhã
os carros correm e o vento sopra
e dona maria da padaria dá bom dia
quando jorge passa
e cumprimenta o cãozinho vira-lata
que tem aquela carinha de cê não tem comida aí não?
e as gentes importantes apertam as mãos
e contam piada e ouvem a rádio
e param e andam e atravessam as ruas apressados.

e a felicidade
encolhidinha
num canto escuro
não morre:
é um pézinho
murcho de planta
que resiste
na varanda
do apartamento do jorge.