19 de nov. de 2012

...



Hoje acordei meio torto,
meio torpe, meio errado
meio rouco,
 meio vazio,
sem som nas palavras
meio vidro embaçado
meio degrau sem escada.
Acordei meio poema sem rima,
meio verdade inventada.
 Meio palavra
Esperando pra ser complet

10 de nov. de 2012

Embriaguez Confessa.


Eu matei um homem. E venho matando-o desde sempre. Desde antes de ser e ter aprendido a vomitar sobre o papel palavras que fui engolindo aos pouquinhos: verdades inventadas, mentiras amargas e, só vez ou outra, uma letra cinza.

Matei um homem e guardei sua alma na gaveta de meias. O corpo deixo por aí, arrastando-se pelos cantos enquanto acredita que é algo além de um bando de ossos e pele e órgãos, nos quais não resta o menor resquício de vida. Quebrei todos os espelhos da casa para que, quando esbarrar os olhos, não ecoe de dentro tamanho vazio... zio... io.

E os copos, enchi-os todos. Duas pedras de gelo: uma para a solidão da outra. Se grito assim, escondendo minha culpa detrás das linhas, é porque já desisti de me importar. E viro as costas antes de ver você, a quem minhas palavras talvez atinjam (como talvez pendam inertes e se percam pelo caminho).

Matei um homem. A noite é fria e a manhã é cinza. Temo que este homem seja eu. 

20 de out. de 2012

Volcano.




Havia o menino ensimesmado sentado ao chão e o passarinho no alto de sua árvore. Houve, quiçá, um assobiar descompassado e baixinho de uma canção sobre pássaros que não voam, mas ninguém jamais o ouviu. E houve, com toda certeza que ouso escorrer para a ponta dos dedos, um coração batendo.
O passarinho (tão covarde!) observava o menino de longe, sem coragem de tentar um vôo. Pois, ali de seu galho, era um talvez; e como bom pássaro cinza, era cheio de talvezes: metade sim, metade não. Talvez o menino sequer notasse seu tombo, talvez o acudisse e o colocasse em um galho ainda mais alto... Mas talvez o acolhesse em seu ombro e o levasse consigo. Metade sim, metade não.
Como podia? Quando o passarinho olhava para o menino via seu reflexo, de uma estranha maneira. Só não sabia se via pássaro no menino, ou menino no pássaro que era. Mas havia algo naqueles olhos – tão grandes quanto os seus! – que lhe dava uma tal vontade de cair... Um campo de força. E quando os olhares ousavam esbarrar, sentia-se tão perto dele. Ah, o mundo: tão pequeno para a vontade, tão grande para a saudade.
Mas, afinal, quando olhava para o menino via só um pássaro crescido. E o menino, quando olhava para o pássaro, via o quê?




30 de set. de 2012

Avesso.


Quis um poema do avesso
que, em cada verso espesso
trouxesse ao menos um terço
do sorriso que você tem.

Que dissolvesse seu nome na boca
e descesse seco pela garganta oca.
Pelo estômago borboletasse sem fim,
antes de se tornar um pedacinho de mim

Quis te transformar em verso
pra te ler em voz alta,
assim que o céu escureceu

Pra te rimar comigo,
e, quando sonhar for impossível
lembrar do verso que é meu.
  

8 de set. de 2012

Átimo.



Quais cores intrínsecas
Carrega o filho pródigo?
Quietude que n'alma respinga
Ou obra-prima detrás de códigos?

Tal desfazer amiúde
Cansa os olhos descorados:
Decolar a vida antes que mude,
Decorar o dia antes de sábado.

Mancha no asfalto.
Só, feito canção,
Descompasso sem cortejo.

(Já vi muito gato sem sorriso
Mas sorriso sem gato,
Sou o primeiro que vejo).

9 de ago. de 2012

Casmurrice.


ou soneto inacabado.

Olhou-me e eu mal notei, cosido ao avesso dos meus olhos, cinza – pecado que por si só já me renderia arrependimento suficiente pra uns catorze versos. Sorte a minha, Feeló cutucou-me e eu os vi: oblíquos e dissimulados. Não de ressaca, mas de festa (tornar-se-iam Capitu quando as luzes se apagassem, mas não digo com certeza) feito sorriso demais para caber nos lábios finos.
Não durou mais que um segundo, mas escondi-me detrás de um ponteiro incauto e o fiz maior. Tempo o suficiente, apenas, para tornar palpável a efemeridade que espetou em mim junto com os olhos. Pediria ajuda à noite se ela já estivesse ali. Havia duas ou três janelas, bem verdade, mas também não ousei pedir ajuda aos vaga-lumes. Compreenda: o soneto é tão inacabado quanto inacabável, e assim o é para que a eternidade trate de preencher as lacunas.
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!... Ganha-se a vida, perde-se a batalha.
Mas ainda que seus olhos nada me dissessem e de mais nada me servissem, eu os usaria de marca-páginas: da próxima vez, continuo de onde parei. 

5 de ago. de 2012

Quando Feeló Quis Gritar.



O silêncio a engolia. Tapava-lhe os olhos com a escuridão que cheirava a brócolis. Era assim, noite após noite. Mal se importava com o céu estrelado que sorria para ela, ou com a brisa gélida que vinha só para despentear-lhe os cabelos demasiadamente curtos. Queria mesmo era lançar um grito desumano... Mas não sabia ao certo se queria ser escutada. Mal adiantava colocar as meias de lã e fugir em desengonço para o quintal, porque antes mesmo do pôr-do-sol, as mãos de Sofia lhe cobririam a boca. E ela não lutaria. Não lutaria porque não tinha certeza se queria ser escutada; se flertar com o silêncio lhe fazia, de todo, mal.

Até que, na noite mais fria que encontrou, ela olhou para cima. E viu logo um velho papel outrora maculado de carmim. E, assim que as pontas de seus dedos quentes encontraram a superfície fria do papel, Feeló gritou.

E seu grito carmim cortou o frio de uma madrugada qualquer. (Ou de todas elas).

E Feeló sentiu, enfim.