Eu matei um homem. E venho matando-o desde sempre. Desde
antes de ser e ter aprendido a vomitar sobre o papel palavras que fui engolindo
aos pouquinhos: verdades inventadas, mentiras amargas e, só vez ou outra, uma
letra cinza.
Matei um homem e guardei sua alma na gaveta de meias. O
corpo deixo por aí, arrastando-se pelos cantos enquanto acredita que é algo além
de um bando de ossos e pele e órgãos, nos quais não resta o menor resquício de
vida. Quebrei todos os espelhos da casa para que, quando esbarrar os olhos, não
ecoe de dentro tamanho vazio... zio... io.
E os copos, enchi-os todos. Duas pedras de gelo: uma para
a solidão da outra. Se grito assim, escondendo minha culpa detrás das linhas, é
porque já desisti de me importar. E viro as costas antes de ver você, a quem
minhas palavras talvez atinjam (como talvez pendam inertes e se percam pelo
caminho).
Matei um homem. A noite é fria e a manhã é cinza. Temo que
este homem seja eu.
Havia o menino ensimesmado sentado
ao chão e o passarinho no alto de sua árvore. Houve, quiçá, um assobiar
descompassado e baixinho de uma canção sobre pássaros que não voam, mas ninguém
jamais o ouviu. E houve, com toda certeza que ouso escorrer para a ponta dos
dedos, um coração batendo.
O passarinho (tão covarde!)
observava o menino de longe, sem coragem de tentar um vôo. Pois, ali de seu
galho, era um talvez; e como bom pássaro cinza, era cheio de talvezes: metade
sim, metade não. Talvez o menino sequer notasse seu tombo, talvez o acudisse e
o colocasse em um galho ainda mais alto... Mas talvez o acolhesse em seu ombro
e o levasse consigo. Metade sim, metade não.
Como podia? Quando o passarinho
olhava para o menino via seu reflexo, de uma estranha maneira. Só não sabia se
via pássaro no menino, ou menino no pássaro que era. Mas havia algo naqueles
olhos – tão grandes quanto os seus! – que lhe dava uma tal vontade de cair... Um
campo de força. E quando os olhares ousavam esbarrar, sentia-se tão perto dele.
Ah, o mundo: tão pequeno para a vontade, tão grande para a saudade.
Mas, afinal, quando olhava para o
menino via só um pássaro crescido. E o menino, quando olhava para o pássaro,
via o quê?
Quis um poema do avesso que, em cada verso espesso trouxesse ao menos um terço do sorriso que você tem. Que dissolvesse seu nome na boca e descesse seco pela garganta oca. Pelo estômago borboletasse sem fim, antes de se tornar um pedacinho de mim
Quis te transformar em verso pra te ler em voz alta, assim que o céu escureceu Pra te rimar comigo, e, quando sonhar for impossível lembrar do verso que é meu.
Quais cores intrínsecas Carrega o filho pródigo? Quietude que n'alma respinga Ou obra-prima detrás de códigos? Tal desfazer amiúde Cansa os olhos descorados: Decolar a vida antes que mude, Decorar o dia antes de sábado. Mancha no asfalto. Só, feito canção, Descompasso sem cortejo. (Já vi muito gato sem sorriso Mas sorriso sem gato, Sou o primeiro que vejo).
Olhou-me e eu
mal notei, cosido ao avesso dos meus olhos, cinza – pecado que por si só já me
renderia arrependimento suficiente pra uns catorze versos. Sorte a minha, Feeló
cutucou-me e eu os vi: oblíquos e dissimulados. Não de ressaca, mas de festa
(tornar-se-iam Capitu quando as luzes se apagassem, mas não digo com certeza)
feito sorriso demais para caber nos lábios finos.
Não durou mais
que um segundo, mas escondi-me detrás de um ponteiro incauto e o fiz maior. Tempo
o suficiente, apenas, para tornar palpável a efemeridade que espetou em mim
junto com os olhos. Pediria ajuda à noite se ela já estivesse ali. Havia duas
ou três janelas, bem verdade, mas também não ousei pedir ajuda aos vaga-lumes. Compreenda:
o soneto é tão inacabado quanto inacabável, e assim o é para que a eternidade
trate de preencher as lacunas.
Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!...
Ganha-se a vida, perde-se a batalha.
Mas ainda que
seus olhos nada me dissessem e de mais nada me servissem, eu os usaria de
marca-páginas: da próxima vez, continuo de onde parei.
O silêncio a engolia. Tapava-lhe os olhos com a escuridão
que cheirava a brócolis. Era assim, noite após noite. Mal se importava com o
céu estrelado que sorria para ela, ou com a brisa gélida que vinha só para despentear-lhe os cabelos demasiadamente curtos. Queria mesmo era lançar um grito
desumano... Mas não sabia ao certo se queria ser escutada. Mal adiantava colocar as
meias de lã e fugir em desengonço para o quintal, porque antes mesmo do
pôr-do-sol, as mãos de Sofia lhe cobririam a boca. E ela não lutaria. Não
lutaria porque não tinha certeza se queria ser escutada; se flertar com o
silêncio lhe fazia, de todo, mal.
Até que, na noite mais fria que encontrou, ela olhou para
cima. E viu logo um velho papel outrora maculado de carmim. E, assim que as
pontas de seus dedos quentes encontraram a superfície fria do papel, Feeló
gritou.
E seu grito carmim cortou o frio de uma madrugada
qualquer. (Ou de todas elas).