26 de fev. de 2018

existe um poema não escrito

no fundo da minha gaveta de meias
existe um poema não escrito

acomodou-se no escuro intocável
agora rosna e mostra
os dentes pontiagudos
sempre que ansioso e aflito
o tento escrever

há um poema turvo
que nunca tomou forma
mas que chora copioso
anuviado
as tintas as dores os amores
todos muitíssimo bem guardados

há um poema bravo
com muitos dedos para apontar

há um poema calmo
qual deriva em alto-mar

há um poema alto
crescido e longilíneo
que se recusa a ser domado
poema que ao parto
abandonado
fez-se farto
em se fazer sozinho

dele escorrem rimas infantis
velhas fotografias de família
filmes, livros, músicas

dele caem cacos de mim
pétalas de outrora
e pegadas de uma eterna busca

dele grita o SILÊNCIO
e o talvez

dele escorregam alguns sempres
e transborda a pequenez

existe um poema não escrito
no fundo da minha gaveta de meias
existe um poema bem bonito
que vem escrevendo a si mesmo
desde que o deixei para depois

ele não espera
um nome
não espera um verso
nem uma rima ele implora

ele não colabora
não é manso
esse poema nunca que vai embora

ele fica ali
com os olhinhos medrosos
desconfiados
sempre à espreita
disposto a atacar

quando na violência dos dias
vou esquecendo de ser poesia
o poema surge aos brados
por cortesia
para me lembrar.

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