7 de mar. de 2014

Ei, medo.

Já que tu não podes ir embora, entra e toma um café. Estou obrigando-me a sentir-me acostumado à tua nebulosa presença. Sabe, há uma fome que toma vida em meu peito, muito embora venha apenas a passeio: ela vem em épocas de baixa temporada, quando os pensamentos são fúteis e vida está efêmera; quando não há nada que realmente valha a visita que não a falta de existência. E a desistência. Não é um buraco, não é o silêncio: é a vida, o tempo que corre astuto e arisco. Essa fome, tu que estás no caminho, clama por algo belo. Algo que venha de dentro e seja cinza, que seja tão eu quanto meu. Algo que faça sentir-me efemeramente belo. Que meliflua as cores. Mas aí tu apareces. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Costurando-me enquanto me rasgo, tapando os buracos da alma de onde as palavras escorrem. Ainda que não nos tenhamos sido apresentados e ainda que eu mal saiba teu nome, ainda assim, senta-te e sirva-te do meu café, não te acanhes. Somos velhos espectros um ao outro, companhia solitária. Sinta-te em casa, por favor, eu peço. Mas deixa que beleza escorra. Tenho pra mim que os ecos da vida que levo têm começado a silenciar, o que me entristece um bocado. Veja bem, que sou senão os ecos que deixei e deixarei? E os deixei? Tenho reclamado por pouco e me bordado mártir nessa vida, como que pra ser bela. Mas não é. Veja bem, já que tu não te vais, toma um chá, mas encha minha xícara de alma, por favor. Tenho fome de beleza.

28 de dez. de 2013

Wanderlust

Que faz o poeta, senão
Mendigar uns versos
Num papel impresso
Por um bocado de pão

Que faz a poesia?
Pra que serve? Senão
Anoitecer rostos imberbes
Senão cortar o coração

Mas minha alma é retirante
Tal amada qual amante
Causa asco a rotina.

Quer mudar o mundo
Mas tem medo do escuro:
É por isso que escreve poesia.

Jaz

os campos de guerra
também são floridos
as sarjetas, os bueiros
os corações esquecidos

pois a cada nova queda,
é o solo que mais fértil fica
é a vida que mais se enverga
sem sentido, para virar nova vida

mas não há tempo para velórios,
no campo de batalha,
não há tempo para luto

ninguém se lembra dos nomes
das flores esmagadas
gente morta é adubo

27 de dez. de 2013

diálogo

- sabe, eu vi aquele filme esses dias atrás e fiquei pensando...
- no quê?
- que é engraçado. a gente nunca sabe o que é real. afinal, o que é ser real...?
- que papo mais maluco... como assim?
- olha pra gente. nós somos reais? eu posso te tocar, olha. posso te ver, te cheirar, te ouvir... isso faz de você real?
- pois sim, como não faria?
- ah, não sei. para pra pensar: existe um monte de pessoas vivendo do outro lado do planeta, pessoas que eu nunca toquei, nunca vi, nunca ouvi. elas não são reais, então?
- claro que são! você agora é a medida para todas as coisas?
- ora, se não eu, quem é? a gente só vive no mundo através dos nossos sentidos. o que me garante que meus sentidos não me enganam? agora mesmo, essa conversa pode ter acontecido semana passada e meus sentidos só estão repetindo ela pra mim. eu posso agora mesmo estar sentado na minha varanda tomando chá mate, e achando que estou aqui com você. como é que vou saber?
- ah, para, não viaja. você nem é uma pessoa de verdade. você só é um amontoado de palavras num diálogo. nem letra maiúscula nós temos. acho bom você ficar aí na sua e parar de questionar.
- mas agora mesmo tem alguém lendo a gente.
- oxe, e daí?
- e daí que aposto que agora temos um rosto. um corpo. uma voz, um cheiro, um olhar, um par de sapatos e uma roupa bonita. nós somos menos reais só porque estamos existindo dentro da cabeça de alguém? afinal, não é todo mundo que existe dentro da cabeça de alguém? é com os meus olhos que eu vejo o mundo.
- eu acho é que você tá ficando biruta.
- ah, você não entende. vai continuar repetindo as mesmas palavras sempre, exatamente as mesmas. você não tem poder de escolha porque tá acorrentado.
- que mané acorrentado!
- então vai lá, diz alguma coisa diferente, quebra o ciclo. faz seu próprio destino. quero ver.
- eu não, tou bem assim. mas você pode tentar aí.
- e eu vou mesmo. vou escrever minha própria história. você tem papel?
- tenho, aqui ó.
- ih, mas esse já tem coisa escrita.
- ué!
- é, olha, o texto começa assim: “- sabe, eu vi aquele filme esses dias atrás e fiquei pensando...”

13 de out. de 2013

Viveria


À meia luz os olhos dela são menos tristes. Os lábios rubros que se abrem, se contorcem e se envergam jamais sorriem, são meras linhas que desgrudam e se tocam num átimo para falar de amor. Tocaria a ponta dos dedos pútridos no lóbulo da orelha direita, como que para mostrar a bijuteria barata que ainda brilhava a essa hora da madrugava, estrela (de)cadente – mas querendo mesmo dizer que mais vale ouvir o silêncio porque ele não mente – tocaria se dedos pútridos ainda houvesse. O silêncio não mais agarra por trás e arranha sua cintura qual o tango taciturno da noite passada. Borrifaria, então, as últimas gotas do perfume que escorrem pelo espelho por entre os seios para tapear o cheiro dos sonhos mortos que carrega dentro de si há muito, e riria ao lembrar de que cada boca que a beijara levara um pouco daquela morte, e que em pouco aqueles dentes também apodreceriam e então restaria ali a poesia do que nunca existiu, enterrados sem nome ou epitáfio. Aqui jaz, e só. Jazia há muito. Talvez até pentearia os cabelos, que foram tranças, foram nada. E deixaria que a escova caísse no chão só para ter que se mover e sentir o calor vívido da brisa que entra pela janela despretensiosamente entreaberta, cheirando a álcool e tabaco. E fitaria fundo os olhos no espelho até que visse a própria alma, refugiada nos recônditos calejados de sua pífia existência. Num instante ralharia consigo, perguntando o que diabos se tornara, o que diabos fizera com a vida.  E cada célula que ainda vivesse amontoada sobre seus sonhos abriria os olhos, e elas se entreolhariam desacreditadas – é isso mesmo que estou entendendo? Ela prometeria a si mesma que amanhã mesmo trataria de ser feliz. E as lágrimas que escorreriam de seus olhos seriam também felizes. E assim que o sol entrasse por aquela maldita janela entreaberta e viesse tocar a brancura de sua pele, ela encheria os pulmões do ar de um novo dia e, enfim, viveria.
Viveria, se o coração que batia, batesse para levar o sangue por entre o seu corpo, e não por sobre a penteadeira.
viveria
se o coração
ainda

bat

ess

e

18 de set. de 2013

Ponto ação

de poucas nesgas de alma
construiu pulmões de respirar
teceu mãos para pintar com calma
e os pés para não voltar

dos poucos ares imundos
respirou: o mundo
que não parou de rodar
que não parou de ser mundo
não parou: nem parará

do pouco de vida que tinha, escreveu-se
num poço profundo, poema moribundo:
vivendo como quem espera
- sem delícias ou dores -
o ponto final chegar
.


(e é aqui que você coloca as flores)

26 de mai. de 2013

Destom.

Silêncio da noite
que me aperta a garganta:
é sístole da vida
num suspiro acrobata que
dá pirueta quando sai do peito
e volta pra me acertar feito verdade
enquanto vejo-o no espelho.

Pois sim, e meu silêncio? 

O que faz (ou diz)?
confunde covardia e paz do que
eu calo só por um triz

ou faz coro ao frio
d'uns versos que dizem
que o impossível é
só pedra no caminho
para fatigar nossas retinas
para nos dobrar
e no fim do dia
transformar tanta sede

em poesia.