10 de mai de 2013

Sobre ser, estar e pertencer.

"You do not have a soul. You are a soul. You have a body."
C.S. Lewis

Era uma vez. Uma vez que ainda é e que será até o final dos tempos. Em um lugar que não se pode estar, apenas se pode ser. Os pés pequeninos do menino mal tocavam o chão poeirento enquanto ele gangorreava no brinquedo velho. Dependendo de quem o visse, especialmente naquele lugar, veria pele enrugada, cabelos brancos e os olhos negros de quem já viveu um milhão de vezes. Mas para a mulher que o observava de longe, era apenas um menino, com seus cabelos despenteando-se ao ranger do balanço e a inocência estampada nos olhos. Sua aparência também variaria aos olhos de outrem. Podia-se vê-la com cabelos ruivos - Scarlet, sim? - e um cigarro aceso pendendo nos dedos, o qual ela tragaria com demasiado prazer e ainda sorriria, descarada. O menino ralharia com ela, se a visse assim. Mas não vê. Outras pessoas, não obstante, a veriam tão divertida quanto um pacote de salgadinhos sabor nacho. Disposta a pintar os cabelos de azul ou dançar no meio da rua, se a convidassem. O menino  coraria e talvez sequer ousaria abandonar seu brinquedo se a visse assim. Mas não vê. Haveria ainda quem a visse toda responsabilidades. Gente grande. Inquebrável. Com o nome bonito de uma antiga canção francesa. Et j'ai crié pour qu'elle revienne. Sim? Se o menino a visse assim, limitaria-se a fazer um cafuné em seus cabelos com as mãozinhas diminutas. Mas não vê.

O menino a vê da mesma maneira que ela o vê. Parte estendida de si que, vez em quando em umas vidas, acabam nascendo longe demais um do outro. Às vezes seus corpos são nada além de um bando de pixels mal odernados. Às vezes são um amontoado de palavras. Às vezes são abraço e carne e osso. Às vezes não são nada. Pois sabiam que, fosse o que fosse, no final de tudo poderiam encontrar-se ali, naquele parquinho poeirento que não existe - mas que é. O lugar onde não se pode estar, pode-se apenas ser: e eles são. Almas nuas uns aos outros. Sem esconder subterfúgios de si ou guardando um recorte d'alma no âmago de suas existências para jamais compartilhar. E, fosse o que fosse, o menino sairia de seu balanço só para lembrar a moça que só se vê bem com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos. E apontaria o dedo para a estrela onde, talvez, quem sabe, morariam na próxima vida. E onde talvez, quem sabe, nascessem outra vez longe demais um do outro. Mas ele diria, sem dúvidas, o quão curioso está para descobrir que artimanhas o destino vai arrumar dessa vez para uni-los. Você não?

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