Silêncio da noite que me aperta a garganta: é sístole da vida num suspiro acrobata que dá pirueta quando sai do peito e volta pra me acertar feito verdade enquanto vejo-o no espelho.
Pois sim, e meu silêncio? O que faz (ou diz)? confunde covardia e paz do que eu calo só por um triz ou faz coro ao frio d'uns versos que dizem que o impossível é só pedra no caminho para fatigar nossas retinas para nos dobrar e no fim do dia transformar tanta sede em poesia.
"You do not have a soul. You are a soul. You have a body." C.S. Lewis
Era uma vez. Uma vez que ainda é e que será até o final dos tempos. Em um lugar que não se pode estar, apenas se pode ser. Os pés pequeninos do menino mal tocavam o chão poeirento enquanto ele gangorreava no brinquedo velho. Dependendo de quem o visse, especialmente naquele lugar, veria pele enrugada, cabelos brancos e os olhos negros de quem já viveu um milhão de vezes. Mas para a mulher que o observava de longe, era apenas um menino, com seus cabelos despenteando-se ao ranger do balanço e a inocência estampada nos olhos. Sua aparência também variaria aos olhos de outrem. Podia-se vê-la com cabelos ruivos - Scarlet, sim? - e um cigarro aceso pendendo nos dedos, o qual ela tragaria com demasiado prazer e ainda sorriria, descarada. O menino ralharia com ela, se a visse assim. Mas não vê. Outras pessoas, não obstante, a veriam tão divertida quanto um pacote de salgadinhos sabor nacho. Disposta a pintar os cabelos de azul ou dançar no meio da rua, se a convidassem. O menino coraria e talvez sequer ousaria abandonar seu brinquedo se a visse assim. Mas não vê. Haveria ainda quem a visse toda responsabilidades. Gente grande. Inquebrável. Com o nome bonito de uma antiga canção francesa. Et j'ai crié pour qu'elle revienne. Sim? Se o menino a visse assim, limitaria-se a fazer um cafuné em seus cabelos com as mãozinhas diminutas. Mas não vê.
O menino a vê da mesma maneira que ela o vê. Parte estendida de si que, vez em quando em umas vidas, acabam nascendo longe demais um do outro. Às vezes seus corpos são nada além de um bando de pixels mal odernados. Às vezes são um amontoado de palavras. Às vezes são abraço e carne e osso. Às vezes não são nada. Pois sabiam que, fosse o que fosse, no final de tudo poderiam encontrar-se ali, naquele parquinho poeirento que não existe - mas que é. O lugar onde não se pode estar, pode-se apenas ser: e eles são. Almas nuas uns aos outros. Sem esconder subterfúgios de si ou guardando um recorte d'alma no âmago de suas existências para jamais compartilhar. E, fosse o que fosse, o menino sairia de seu balanço só para lembrar a moça que só se vê bem com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos. E apontaria o dedo para a estrela onde, talvez, quem sabe, morariam na próxima vida. E onde talvez, quem sabe, nascessem outra vez longe demais um do outro. Mas ele diria, sem dúvidas, o quão curioso está para descobrir que artimanhas o destino vai arrumar dessa vez para uni-los. Você não?
debaixo do mesmo céu que o seu azul demais pros meus olhos sem cor fez-se torto e vivo um algo ao qual não dei nome. perseguiu-me o dia todo e guardei debaixo do travesseiro, à noite meio aos sonhos e às estrelas. as batidas do coração cantaram para que eu dormisse. acordei perdido. meio joão sem santo nem cristo que de escolha própria escolhera a solidão e, que de só, agarrou-se à mão do infinito vasto e torto. mais torto e vasto que bonito com o passado ao lado e o presente ali debaixo infinito. pelos grãos de areia que cocegavam meus pés e pela chuva que já dizia cair em pouco vi o fim vindouro, e, acredite, bastava só um so pro.
Pode ser que o barco vire. Também pode ser que não.
Semicerrou os
olhos ao deslizar a ponta dos dedos pelo copo de não-sei-o-quê. Tocara-o nos
lábios uma dezena de vezes e agora estavam secos; os lábios e o copo. Apoiou-se
na bancada para conseguir sorrir de vertigem.
- Cê tá bem?
- Tou, é só...
Era só o quê? Era só e ponto. Estavam só, e só. Pode
isso? Ficar só e ficar com outra pessoa ao mesmo tempo? Vai saber. Bastava que
ficasse incompleto, que reticenciasse por aí. Não queria saber explicar e, de
fato, não sabia. Agora que parou para pensar... A ideia de não saber não
incomodava, como sempre fazia. Era só fechar os olhos e ouvir o coração batendo
para acreditar que fosse verdade. Talvez não fosse, mas o coração batia de
qualquer forma.
- E afinal, o que é que eu tou fazendo aqui, hein?
- Eu é que sei?
Olhou em volta e sentiu-se estranhamente à vontade.
Nunca ficava à vontade. Talvez conhecesse aquele azulejo no tom de azul mais
feio que já vira de outras vidas. E aqueles olhos, no tom de azul mais bonito
que já vira? Lembrava-se dessa vida mesmo. Como um prenúncio do
não-saber-onde-colocar-a-mão que certamente se seguiria. E do medo de deixar-se
cair demais. Pendurar-se-ia naqueles cabelos e escalaria para cima até, mais uma
vez, alcançar-se: no topo de outrem. A lasca perdida de seu coração guardada
debaixo daquela língua.
Aproximou-se de si. E, dos dois lados, espiralou
pelo ar aquele cheiro de "você" que ninguém mais tinha.
A cabeça pendeu à guisa de pergunta que jamais se
enunciou.