10 de mar. de 2013

Descontrole Remoto.

soube assim que viu
soube que não saberia
que, num dia que sumiu,
cantá-lo-ia feito ode

deslizou pelo corrimão
no chão esborrachar-se-ia
se trespassasse o coração
a sombra d'uma sístole torpe

só pra se perder
nos lábios rasos:
sorriso amarelo feito foto

pra se bagunçar
ao mergulhar nos olhos:
seu descontrole remoto.

15 de fev. de 2013

Casa








Pode ser que o barco vire. Também pode ser que não.

 Semicerrou os olhos ao deslizar a ponta dos dedos pelo copo de não-sei-o-quê. Tocara-o nos lábios uma dezena de vezes e agora estavam secos; os lábios e o copo. Apoiou-se na bancada para conseguir sorrir de vertigem.

- Cê tá bem?

- Tou, é só...

Era só o quê? Era só e ponto. Estavam só, e só. Pode isso? Ficar só e ficar com outra pessoa ao mesmo tempo? Vai saber. Bastava que ficasse incompleto, que reticenciasse por aí. Não queria saber explicar e, de fato, não sabia. Agora que parou para pensar... A ideia de não saber não incomodava, como sempre fazia. Era só fechar os olhos e ouvir o coração batendo para acreditar que fosse verdade. Talvez não fosse, mas o coração batia de qualquer forma.

- E afinal, o que é que eu tou fazendo aqui, hein?

- Eu é que sei?

Olhou em volta e sentiu-se estranhamente à vontade. Nunca ficava à vontade. Talvez conhecesse aquele azulejo no tom de azul mais feio que já vira de outras vidas. E aqueles olhos, no tom de azul mais bonito que já vira? Lembrava-se dessa vida mesmo. Como um prenúncio do não-saber-onde-colocar-a-mão que certamente se seguiria. E do medo de deixar-se cair demais. Pendurar-se-ia naqueles cabelos e escalaria para cima até, mais uma vez, alcançar-se: no topo de outrem. A lasca perdida de seu coração guardada debaixo daquela língua.

Aproximou-se de si. E, dos dois lados, espiralou pelo ar aquele cheiro de "você" que ninguém mais tinha.

A cabeça pendeu à guisa de pergunta que jamais se enunciou.

- O que cê tá fazendo?

Os lábios se tocaram à guisa de resposta.

- Eu tou voltando pra casa.

13 de fev. de 2013

Soneto de Confete.

(ou confete de soneto)

enrolada em serpentina
pintou de cinza a cara
pierrot de quinta
ou arlequina barata

bailarinou, a pequenina
fingindo alegria inata
e caiu torta na esquina
enquanto a banda passava

anoiteceu sozinha,
amanheceu rotina,
na boca o gosto de felicidade.

escorreu pela pia da cozinha
pintando a cara de cinzas
pr'uma vida que não é verdade.

21 de dez. de 2012

Epitáfio Avesso.




Ainda que o mundo fosse acabar de fato, ainda assim teria recusado quando o chamaram para dançar. Gostava da música e até cantarolou quando não tinha ninguém olhando. Mas o lugar era o mesmo, as pessoas eram as mesmas, o barman era o mesmo. Ele era o mesmo. A certeza veio quando deixou escorrer a bebida pelo canto dos lábios secos. Era uísque da primeira vez que pedira, mas agora não sabia ao certo... Deveria haver algo entre conformismo e vontade rodopiando liquefeito pelo copo e esbarrando vez ou outra nas pedras de gelo. Quiçá dissolvesse a alegria irrealizada presa na garganta. Tomou outro gole.

O cabelo, despenteara no caminho. O colarinho manchado e puído, a gravata frouxa, caindo torta pelo peito feito cruz. Os olhos úmidos e cinzas. Foram chamas um dia e talvez algo que renascesse em breve. Mas não sabia ao certo. Se o mundo fosse mesmo acabar, teria dito à moça da recepção o quanto achava que ela era bonita? Teria chamado-a para sair, teria sorrido, teria aceitado quando o convidaram para dançar? Quem sabe. O mundo não acabaria. Não é?

Mas não se pode morrer engasgado de alegria, rapaz! Teria que gritá-la ao mundo antes de ir. Ou tomar para si e engolir, enfim. A iminência do fim aceleraria as sístoles e as diástoles e os desastres e o mundo ficaria mais bonito, de repente. Um coração batendo, ofegante aos suspiros.

Mas o mundo não acaba. E ainda há tempo de pedir mais uma dose de autocomiseração. Sem gelo, dessa vez. E tropeçar em poesia ao cruzar a porta.

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Quem sabe um dia.

19 de dez. de 2012

Lavo as Mãos.




Fitar os olhos, torpe
no espelho do banheiro
fazer escorrer, qual sorte
segredos putrefeitos
por entre os dedos,
o pulso, a palma,
o braço inteiro.

Esquecer calado.
Enxugar com calma.

Mãos limpas,
mas e agora?
como lavar
a alma?

1 de dez. de 2012

Atraz da Porta.

(Com licença, Chico.)

Quando olhou bem
nos velhos versos meus
e de conhecido nada viu
tinta azul, nada além

Corri esconder-me
na entrelinha pueril:
uma melodia que ninguém ouviu,
um verso que ninguém escreveu.

Por isso fico aqui, só
atroz atraz da porta
esperando novo sol nascer

Quem sabe note minha gramática errada...
Vem e traz sua borracha usada!
Pra me apagar e me reescrever.