14 de jan. de 2013
21 de dez. de 2012
Epitáfio Avesso.
Ainda que o mundo fosse acabar de
fato, ainda assim teria recusado quando o chamaram para dançar. Gostava da música
e até cantarolou quando não tinha ninguém olhando. Mas o lugar era o mesmo, as
pessoas eram as mesmas, o barman era o mesmo. Ele era o mesmo. A certeza veio
quando deixou escorrer a bebida pelo canto dos lábios secos. Era uísque da
primeira vez que pedira, mas agora não sabia ao certo... Deveria haver algo
entre conformismo e vontade rodopiando liquefeito pelo copo e esbarrando vez ou
outra nas pedras de gelo. Quiçá dissolvesse a alegria irrealizada presa na
garganta. Tomou outro gole.
O cabelo, despenteara no caminho. O
colarinho manchado e puído, a gravata frouxa, caindo torta pelo peito feito
cruz. Os olhos úmidos e cinzas. Foram chamas um dia e talvez algo que renascesse em breve. Mas não sabia
ao certo. Se o mundo fosse mesmo acabar, teria dito à moça da recepção o quanto
achava que ela era bonita? Teria chamado-a para sair, teria sorrido, teria
aceitado quando o convidaram para dançar? Quem sabe. O mundo não acabaria. Não é?
Mas não se pode morrer engasgado
de alegria, rapaz! Teria que gritá-la ao mundo antes de ir. Ou tomar para si e
engolir, enfim. A iminência do fim aceleraria as sístoles e as diástoles e os
desastres e o mundo ficaria mais bonito, de repente. Um coração batendo,
ofegante aos suspiros.
Mas o mundo não acaba. E ainda há
tempo de pedir mais uma dose de autocomiseração. Sem gelo, dessa vez. E
tropeçar em poesia ao cruzar a porta.
“Que não seja
imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
Mas que seja infinito enquanto dure.”
Quem sabe um dia.
19 de dez. de 2012
Lavo as Mãos.
Fitar os olhos, torpe
no espelho do banheiro
fazer escorrer, qual sorte
segredos putrefeitos
por entre os dedos,
o pulso, a palma,
o braço inteiro.
Esquecer calado.
Enxugar com calma.
Mãos limpas,
mas e agora?
como lavar
a alma?
1 de dez. de 2012
Atraz da Porta.
(Com licença, Chico.)
Quando olhou bem
nos velhos versos meus
e de conhecido nada viu
tinta azul, nada além
Corri esconder-me
na entrelinha pueril:
uma melodia que ninguém ouviu,
um verso que ninguém escreveu.
Por isso fico aqui, só
atroz atraz da porta
esperando novo sol nascer
Quem sabe note minha gramática errada...
Vem e traz sua borracha usada!
Pra me apagar e me reescrever.
Quando olhou bem
nos velhos versos meus
e de conhecido nada viu
tinta azul, nada além
Corri esconder-me
na entrelinha pueril:
uma melodia que ninguém ouviu,
um verso que ninguém escreveu.
Por isso fico aqui, só
atroz atraz da porta
esperando novo sol nascer
Quem sabe note minha gramática errada...
Vem e traz sua borracha usada!
Pra me apagar e me reescrever.
19 de nov. de 2012
...
Hoje
acordei meio torto,
meio
torpe, meio errado
meio
rouco,
meio
vazio,
sem som
nas palavras
meio
vidro embaçado
meio
degrau sem escada.
Acordei
meio poema sem rima,
meio
verdade inventada.
Meio
palavra
Esperando
pra ser complet
10 de nov. de 2012
Embriaguez Confessa.
Eu matei um homem. E venho matando-o desde sempre. Desde
antes de ser e ter aprendido a vomitar sobre o papel palavras que fui engolindo
aos pouquinhos: verdades inventadas, mentiras amargas e, só vez ou outra, uma
letra cinza.
Matei um homem e guardei sua alma na gaveta de meias. O
corpo deixo por aí, arrastando-se pelos cantos enquanto acredita que é algo além
de um bando de ossos e pele e órgãos, nos quais não resta o menor resquício de
vida. Quebrei todos os espelhos da casa para que, quando esbarrar os olhos, não
ecoe de dentro tamanho vazio... zio... io.
E os copos, enchi-os todos. Duas pedras de gelo: uma para
a solidão da outra. Se grito assim, escondendo minha culpa detrás das linhas, é
porque já desisti de me importar. E viro as costas antes de ver você, a quem
minhas palavras talvez atinjam (como talvez pendam inertes e se percam pelo
caminho).
Matei um homem. A noite é fria e a manhã é cinza. Temo que
este homem seja eu.
20 de out. de 2012
Volcano.
Havia o menino ensimesmado sentado
ao chão e o passarinho no alto de sua árvore. Houve, quiçá, um assobiar
descompassado e baixinho de uma canção sobre pássaros que não voam, mas ninguém
jamais o ouviu. E houve, com toda certeza que ouso escorrer para a ponta dos
dedos, um coração batendo.
O passarinho (tão covarde!)
observava o menino de longe, sem coragem de tentar um vôo. Pois, ali de seu
galho, era um talvez; e como bom pássaro cinza, era cheio de talvezes: metade
sim, metade não. Talvez o menino sequer notasse seu tombo, talvez o acudisse e
o colocasse em um galho ainda mais alto... Mas talvez o acolhesse em seu ombro
e o levasse consigo. Metade sim, metade não.
Como podia? Quando o passarinho
olhava para o menino via seu reflexo, de uma estranha maneira. Só não sabia se
via pássaro no menino, ou menino no pássaro que era. Mas havia algo naqueles
olhos – tão grandes quanto os seus! – que lhe dava uma tal vontade de cair... Um
campo de força. E quando os olhares ousavam esbarrar, sentia-se tão perto dele.
Ah, o mundo: tão pequeno para a vontade, tão grande para a saudade.
Mas, afinal, quando olhava para o
menino via só um pássaro crescido. E o menino, quando olhava para o pássaro,
via o quê?
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