7 de mar. de 2014

Ei, medo.

Já que tu não podes ir embora, entra e toma um café. Estou obrigando-me a sentir-me acostumado à tua nebulosa presença. Sabe, há uma fome que toma vida em meu peito, muito embora venha apenas a passeio: ela vem em épocas de baixa temporada, quando os pensamentos são fúteis e vida está efêmera; quando não há nada que realmente valha a visita que não a falta de existência. E a desistência. Não é um buraco, não é o silêncio: é a vida, o tempo que corre astuto e arisco. Essa fome, tu que estás no caminho, clama por algo belo. Algo que venha de dentro e seja cinza, que seja tão eu quanto meu. Algo que faça sentir-me efemeramente belo. Que meliflua as cores. Mas aí tu apareces. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. Costurando-me enquanto me rasgo, tapando os buracos da alma de onde as palavras escorrem. Ainda que não nos tenhamos sido apresentados e ainda que eu mal saiba teu nome, ainda assim, senta-te e sirva-te do meu café, não te acanhes. Somos velhos espectros um ao outro, companhia solitária. Sinta-te em casa, por favor, eu peço. Mas deixa que beleza escorra. Tenho pra mim que os ecos da vida que levo têm começado a silenciar, o que me entristece um bocado. Veja bem, que sou senão os ecos que deixei e deixarei? E os deixei? Tenho reclamado por pouco e me bordado mártir nessa vida, como que pra ser bela. Mas não é. Veja bem, já que tu não te vais, toma um chá, mas encha minha xícara de alma, por favor. Tenho fome de beleza.